De acordo com pesquisador da USP, o uso medicinal do canabidiol ainda carece de padronização

O programa Saúde sem Complicações entrevistou Rafael Guimarães dos Santos, pós-doutorando do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, sobre o uso medicinal do canabidiol, substância extraída da Cannabis sativa. Santos é biólogo, mestre em Psicologia e doutor em Farmacologia, com pesquisas na área de substâncias psicoativas e ênfase no estudo das alucinógenas. 

O canabidiol (CBD) é apenas uma entre as mais de 400 substâncias que a maconha pode produzir. O pesquisador lembra que a polêmica sobre o canabidiol hoje no país se dá em função da precariedade na padronização dos extratos, que não têm controle de qualidade. “Tanto na USP em Ribeirão Preto, como em outros centros de pesquisas, que já avaliaram alguns desses extratos, não foram encontrados nem 5% de CBD como anunciado. Por outro lado, apresentam alto teor de THC, que pode intoxicar as crianças.”

A Coordenação do Projeto Estratégico transcreveu alguns trechos da entrevista (cujo link com  o áudio segue abaixo), para facilitar a compreensão do tema.

Rafael Santos explana que a Cannabis sativa, nome científico da maconha, é uma planta que produz vários compostos químicos, tais como outras plantas, a exemplo da camomila e do boldo. O pesquisador registra que “O canabidiol é apenas uma das mais de 400 substâncias que a maconha pode produzir” e que “primo ou irmão do CBD é o THC, que provoca o ‘barato’ da maconha, então quando as pessoas falam do uso recreativo, geralmente elas estão usando a maconha para ter o efeito do THC. O canabidiol, por outro lado, quase que em oposição ao THC, não produz os mesmos efeitos, então a gente sabe que é o THC que produz o problema de efeitos na memória, a vermelhidão dos olhos, a falta de coordenação às vezes de quem acabou de fumar a maconha, e que o canabidiol não produz esses efeitos”. 

O pesquisador evidencia, ainda, que em estudos em humanos tem-se constatado que o canabidiol “reduz a ansiedade, às vezes produz certas sedações em algumas pessoas, mas os efeitos psicoativos do THC não são vistos com o CBD”, resumindo que das 400 substâncias produzidas pela maconha “mais de 100 são canabinóides, que é a família THC, CBD e por aí vai”, sendo o canabidiol e o Tetra-Hidro-Canabinol os dois principais.

Santos deixa claro, por conseguinte, que o canabidiol é uma substância extraída isoladamente da planta da maconha e, de forma isolada, ela não causa os efeitos alucinógenos do THC.

O biólogo explica que o controle da extração de substâncias e das medicações no nosso país é feito pela ANVISA, que aprovou em janeiro o nabiximols, que é um medicamento em spray sublingual que possui tanto THC quanto CBD e é feito, literalmente, a partir da extração da planta por um laboratório inglês, o GW Farmacêuticos, a partir de uma técnica desenvolvida há anos envolvendo variedades de maconha com mais ou menos THC ou CBD para produzir as medicações. Ele ressaltada, nesse aspecto, que a técnica não pode ser equiparada à utilizada para fazer um extrato caseiro da Cannabis.

Santos elucida que fazer o extrato caseiro é complicado, pois não há padronização ou, quando existente, ela é precária. Para o pesquisador o processo “torna difícil saber a procedência da semente utilizada (ainda que importada), se ela contem algum químico, aditivo, bactéria, fungos, metais pesados e, principalmente, a concentração dos canabinóides. Há uma diferença entre a padronização feita em laboratório, com todo um conhecimento especializado, até o composto se transformar em uma medicação aprovada pela ANVISA, e um extrato caseiro, que apesar de ter um efeito terapêutico, não possui controle de qualidade.”

Para ele, é elementar ressaltar que as pessoas que estão fazendo uso de medicamentos com canabidiol extraído artesanalmente podem estar sujeitas a sofrer efeitos alucinógenos justamente pela falta de controle de qualidade. O pesquisador evidencia, nesse sentido, que foram realizadas análises na USP e em outros lugares do mundo dos produtos extraídos artesanalmente, cujos resultados revelaram a falta do componente CBD ou sua presença em baixíssima quantidade, não alcançando nem 5%, e, por outro lado, alto nível de THC, em taxas que apresentam riscos para as crianças e provocavam sinais de intoxicação decorrentes do Tetra-hidro-canabinol. “Estudos realizados em laboratório relatam que crianças apresentaram sinais de intoxicação decorrentes do uso de extratos de canabidiol com alto teor de THC, como se tivessem utilizado a própria Cannabis, como olhos vermelhos, efeitos psicoativos como a dependência, efeitos cognitivos, entre outros, e quando passaram a utilizar canabidiol puro os efeitos diminuíram”. 

Rafael Santos expõe, de outro vértice, que no meio universitário uma inovação importante com a utilização do canabidiol foi a melhora dos sintomas de Parkinson, principalmente dos sintomas não motores associados aos sintomas psicóticos, insônia, depressão e outros, visto que o Canabidiol melhorou significativamente a qualidade de vida e a redução de estigma dos pacientes. No tratamento de outras doenças o pesquisador também relata a melhora dos sintomas na epilepsia, destacando que nos Estados Unidos foi aprovado pela FDA tratamento à base de canabidiol para tais casos, salientando a importância de conceber o uso do canabidiol em conjunto com outros medicamentos, como coadjuvante, pois nem todos os pacientes que fazem o uso chegam a ter eficácia no resultado. Para Santos o CBD “não é uma panaceia que cura tudo”, mesmo que hodiernamente o componente seja especialmente utilizado para tratar epilepsia e Parkinson

O pesquisador esclarece que no Brasil o que está autorizado é o uso compassivo do canabidiol, através da liberação médica por neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras, quando outras medicações não funcionaram. A principal incidência de utilização do CBD no país é no tratamento de pacientes com doenças refratárias, como alguns casos de epilepsia.

Santos ressalta, outrossim, que os efeitos colaterais do CBD, observados em ensaios clínicos, podem ser sonolência, diarreia, problemas gastrointestinais, dentre outros, opinando que antes de tentar o uso do canabidiol a comunidade científica deveria experimentar outros medicamentos e acompanhar a evolução do uso do CBD com o passar dos anos. O entrevistado chamou atenção para o fato de que não há como prever a reação da substância no organismo das crianças que utilizam o extrato hoje todos os dias, bem como que não há estudos suficientes sobre o assunto, consignando que a ANVISA atualmente libera alguns produtos à base de CBD, porém, nenhum de origem brasileira. Todos são produzidos externamente até o momento. 

O entrevistado finaliza, em conclusão, que o canabidiol possui grande potencial terapêutico, mas necessita de responsabilidade no uso e ainda carece de mais pesquisas e experimentos, cujo desenvolvimento abrange um processo burocrático em que devem ser respeitadas todas as etapas.

Veja mais em: O uso medicinal do canabidiol ainda esbarra na padronização dos extratos. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/o-uso-medicinal-do-canabidiol-ainda-esbarra-na-padronizacao-dos-extratos/?amp. Acesso em: 17 dez 2018.

Recomendar esta página via e-mail:
Captcha Image Carregar outra imagem