Sobre a criação da HQ “APMP de chuteiras”

30/01/2023 | Por Vitor Lemes de Resende e Vivian Maria Korb

Ah, o futebol… paixão nacional. Um esporte que consegue unir a diferença e até mesmo parar guerras1. Jogado nos mais belos estádios ou naquele campinho improvisado. O fato é que onde uma bola estiver rolando, com certeza uma turma estará correndo atrás dela. E, obviamente, as trincheiras do Ministério Público não são exceção à regra.

Neste 30 de janeiro, Dia do Quadrinho Nacional2, publicamos um texto contando um pouco sobre o processo de criação da HQ “APMP de chuteiras”, desenvolvida pelo Memorial em parceria com a Associação Paranaense do Ministério Público (APMP), em homenagem ao futebol e à preservação da memória.

 

A ideia

A ideia de transformar casos do cotidiano vividos por membros e servidores do Ministério Público do Paraná em histórias em quadrinhos (HQ) é antiga no Memorial, mas precisou ser adiada devido à pandemia da COVID-19.

Em 2022, porém, a oportunidade de retomar o velho plano, ou pelo menos parte dele, voltou quando, em parceria com a Associação Paranaense do Ministério Público (APMP), iniciamos uma pesquisa sobre a história do futebol em nossa instituição. E um dos resultados do trabalho foi justamente a representação em HQ de alguns causos do esporte bretão praticado pelos promotores e procuradores de Justiça. 

A proposta inicial era, na verdade, de fazer tirinhas com base nesses relatos, como as famosas charges esportivas veiculadas nos jornais, a exemplo das do paranaense Thiago Recchia, Los 3 Inimigos3.

 

Los 3 Inimigos, personagens de quadrinhos do paranaense Thiago Recchia
Los 3 Inimigos, de Thiago Recchia

 

 

Sendo bem recebida pela APMP, a sugestão das tirinhas logo evoluiu para  uma HQ, posteriormente intitulada “APMP de chuteiras”4, que eternizaria casos dos membros do MPPR nas partidas de futebol, contando com a ajuda deles para a realização do projeto.

 

A pesquisa

A pesquisa sobre a história do futebol na instituição surge inspirada, também, pelos vários relatos compartilhados por procuradores e promotores de Justiça no programa REConto. Eram narrativas quixotescas, que não diziam respeito a datas ou títulos, mas sim a lembranças de momentos curiosos nos jogos de futebol e parte de suas jornadas na instituição.

O método historiográfico utilizado no resgate dessas memórias durante a fase de pesquisa e coleta de fontes foi pautado na História Oral. Sendo assim, sentamo-nos e conversamos com aqueles que estavam presentes e participaram das inúmeras partidas que compõem a história do MPPR, tanto com aqueles que jogaram de maneira informal, em uma “pelada” depois do expediente, quanto com aqueles que participaram dos grandes campeonatos organizados pela APMP e demais associações de membros do MP brasileiro.

Ao longo de nossa expedição buscando resgatar e compreender a história do futebol do Ministério Público, alguns nomes eram sempre citados na maneira “vocês precisam conversar com fulano”. Assim, conversamos com Bruno Sérgio Galati, Ivonei Sfoggia, Jair Cirino dos Santos, Edson Luiz Vidal Pinto, Valdecir Guidini de Morais, Sergio Renato Sinhori, Cid Raymundo Loyola Junior, Jorge Derbli, Mauro Henrique Ribas, Olympio de Sá Sotto Maior Neto, João Carlos Gomes – o “Madureira” –, Leonir Batisti e Acir Bueno de Camargo, além de trocarmos e-mails e conversarmos por telefone com pessoas de outros estados, como o procurador de Justiça aposentado Cezar Rigoni, do MPRS – quem gentilmente cedeu uma cópia do livro “Associação do Ministério Público do Rio Grande do Sul 1941-2021: Uma Jornada de Desafios”, obra que possui um capítulo dedicado ao futebol e outros esportes daquela associação. Essas foram algumas das várias pessoas que nos contaram um pouco mais da história do futebol ministerial e nos ajudaram a montar um imenso quebra-cabeça de informações, datas, fatos e crônicas.

E foi a partir dessas inúmeras conversas que colhemos os causos que agora integram a HQ “APMP de chuteiras”. Com tantas histórias, por vezes até diferentes versões de um mesmo acontecimento, tivemos, então, a difícil tarefa de escolher quais seriam adaptadas para o formato de história em quadrinhos.

 

A criação

Com farto material de pesquisa e diversas historietas, iniciamos alguns rabiscos e ideias de roteiros5. Algumas cenas narradas eram tão icônicas, que se traduziam perfeitamente em nossas mentes para o formato de uma HQ. A exemplo de uma das nossas primeiras ideias de ilustração: um quadrinho focando no rosto de um goleiro com grandes óculos e olhos esbugalhados, nervoso diante de um chute indefensável ao gol.

 

Rascunho e arte final do quadrinho que representa a cena do goleiro apavorado diante do chute iminente
Rascunho (Vivian Maria Korb) e arte final (Eve Fernandes) de um quadrinho da história “O goleiro cego”

 

 

Entre outros motivos, foi assim que escolhemos “O goleiro cego” e “Sair ninguém quer”, já que eram facilmente adaptáveis ao formato de uma HQ. Claro que havia outras – e talvez apareçam em outra oportunidade –, mas essas duas foram unânimes. Além disso, criamos a “Quando é dia de futebol”, que busca sintetizar a experiência de jogar o futebol na APMP, prestando ainda homenagem ao esporte.

A partir daí, o roteiro foi ganhando forma e aqueles desenhos tortos e sem jeito dos rascunhos passaram por melhorias significativas pela artista Eve Fernandes, da Dame Studios, a responsável por transformar a rabisqueira em desenhos para a HQ.

 

Rascunho e arte final de quadrinho indicando um jogador sendo chamado com um grito
Processo de criação dos quadrinhos

 

 

Algo que gostamos muito de fazer, e com o que nos divertimos durante a criação da HQ, foi a inclusão de easter eggs, pequenos segredos e curiosidades que podem passar despercebidos ao leitor desatento. A primeira historinha, “Quando é dia de Futebol”, está repleta deles:

  • O terceiro quadrinho é inspirado em uma foto real e nele conseguimos até identificar algumas figuras. Secretamente, entre os jogadores, uma importante personagem para a história do Ministério Público e da APMP também é representada: Maria Tereza Uille Gomes, primeira (e única) mulher procuradora-geral de Justiça e presidente da Associação.

 

Processo criativo do quadrinho com a presença da procuradora de Justiça aposentada Maria Tereza Uille Gomes
Processo criativo do quadrinho com a presença da procuradora de Justiça aposentada Maria Tereza Uille Gomes

 

 

  • Nesse mesmo quadrinho, os jogadores vestem uma camisa polêmica e que já chegou a gerar confusão em campo: nos primeiros campeonatos, lá no final do século XX, a APMP não tinha muitos recursos para comprar material esportivo e por isso o uniforme paranaense não estava, vamos dizer, “muito na moda”. Em certa ocasião, duas outras associações estavam em campo para se enfrentarem e a delegação do Paraná passava, em fila indiana, pela beirada do campo antes do apito inicial. Quando todos passaram, um atleta rival gozou da camisa araucariana. Acontece que o último da fila era filho de um promotor do MPPR, escutou a zombaria e contou para o pai. Ora, aquilo mexeu com os brios do escrete da terra da Gralha Azul, que foi tirar satisfação. A cena foi bizarra, pois uma equipe que nem iniciou sua partida discutia com outra que nem jogaria naquele confronto! E a camisa vermelha, com listras diagonais brancas, ficou conhecida como “a camisa feia da confusão”.

 

Foto do time de futebol que vestia a “camisa feia da confusão”
“A camisa feia da confusão”

 

 

  • O quinto quadrinho foi inspirado na icônica cena do lateral direito da seleção brasileira, Cafu, levantando a taça do pentacampeonato mundial conquistado no Japão/Coreia em 2002. E prestamos homenagem a duas figuras sempre presentes quando o assunto é futebol no MP: Bruno Sérgio Galati e João Carlos Gomes, mais conhecido como “Madureira”, dois dos grandes craques paranaenses.

 

Fotografia de Bruno Sérgio Galati erguendo o troféu dos campeões e quadrinho inspirado na cena do Cafu levantando a taça do pentacampeonato mundial do Brasil
Troféu dos campeões

 

 

  • O quadro seguinte, em que um rival aparece cabeceando em direção ao gol do Paraná, é nada mais, nada menos do que o primeiro gol do francês Zidane contra o Brasil na final da Copa do Mundo de 1998, triste momento da história do nosso futebol.

 

Cena de jogador rival cabeceando a bola e marcando o gol
Gol de cabeça

 

 

  • O árbitro do jogo é o ex-corregedor-geral, Antero da Silveira, que tinha o costume de apitar jogos.

 

Fotografia do procurador de Justiça Antero da Silveira e desenho do goleiro inspirado nele
Arte de goleiro inspirada no procurador de Justiça Antero da Silveira

 

 

  • Vários dos quadrinhos foram também inspirados em fotos da APMP, contando com uma foto de familiares dos promotores-atletas acompanhando o III Campeonato Sul-sudeste-brasileiro no Rio Grande do Sul no ano de 1998, a comemoração em jogo no litoral paranaense (detalhe para a “camisa feia da confusão” desenhada no quadrinho) e uma discussão em campo no XIII Torneio Nacional em Foz do Iguaçu no ano de 2014.

 

Fotografias e artes mostrando a torcida de familiares nos jogos de futebol
A torcida de familiares nos jogos de futebol

 

 

A segunda história, intitulada “O goleiro cego”, foi uma das várias divididas pelo procurador de Justiça Bruno Sérgio Galati, a qual também conta com alguns easters eggs:

  • Como Galati não conseguia lembrar quem era o personagem principal da história, tivemos a liberdade poética de montar sua fisionomia baseada na do procurador de Justiça Ary Florêncio Guimarães, primeiro presidente da APMP.

 

Fotografia do ex-procurador-geral de Justiça que inspirou a criação do personagem “goleiro cego”
Ary Florêncio Guimarães e o “goleiro cego”

 

 

  • Um anime (desenho japonês) que fez muito sucesso no Brasil foi o “Captain Tsubasa”, conhecido aqui nas terras tupiniquins como “Super Campeões”. Ele narra a história de jovens japoneses que tentam se tornar jogadores profissionais de futebol. Dentre eles se destaca o goleiro Wakabayashi, ou Benji, nas primeiras versões brasileiras, e o meia-atacante e protagonista Oliver Tsubasa. Assim, em homenagem ao programa que inspirou e divertiu diversas crianças Brasil afora, recriamos algumas cenas icônicas do anime.

 

Comparativo entre cenas do anime “Super Campeões” e os quadrinhos “APMP de chuteiras”
Cenas do anime “Super Campeões” e dos quadrinhos “APMP de chuteiras”

 

 

A história “Sair ninguém quer”, foi compartilhada pelo procurador de Justiça aposentado Jorge Derbli durante sua participação no programa REConto.

  • Quando o rascunho foi feito, tivemos a sensação de que o personagem careca e de bigode ficou parecido com Walter White, o Heisenberg, do seriado de TV “Breaking Bad”. Assim, apenas de brincadeira, pois se tratava de um esboço, acrescentamos o chapéu, e o que era uma piada interna, acabou virando um easter egg. Porém, tal qual em Inception6, esse easter egg carrega outro easter egg, porque secretamente as feições do nosso Heisenberg foram retiradas do próprio presidente da APMP, André Glitz, como forma de homenagem.

 

Processo criativo da arte de personagem dos quadrinhos “APMP de chuteiras”
Processo criativo da arte de personagem dos quadrinhos “APMP de chuteiras”

 

 

  • Nessa mesma história, também homenageamos Jorge Derbli com o personagem da camisa 7, pois foi ele que compartilhou conosco o episódio protagonizado pelo saudoso craque Luiz Viel.

 

Fotografias dos procuradores Jorge Derbli e Luiz Viel e suas respectivas representações artísticas nos quadrinhos “APMP de chuteiras”
Jorge Derbli e Luiz Viel representados nos quadrinhos “APMP de chuteiras”

 

 

  • O desenho do golaço marcado por Viel foi inspirado no gol de Bebeto na Copa de 1994, nas quartas de final contra a Holanda7.

 

O gol de Bebeto na Copa de 1994 e o gol de Luiz Viel
Os golaços de Bebeto e de Luiz Viel

 

 

Neste pequeno texto, buscamos registrar como se deu o processo de criação da HQ “APMP de chuteiras”, que contou com a fundamental ajuda da equipe da APMP, sem a qual o projeto não seria possível. Transformar os causos dos membros do MPPR em uma mídia com a qual não estamos acostumados foi desafiador, mas muito gratificante.

Durante o almoço de confraternização do Torneio Estadual Cataratas, realizado nos dias 13 e 14 de novembro de 2022, na cidade de Foz do Iguaçu, ocorreu o lançamento do Memorial do Futebol da Associação Paranaense do Ministério Público. Os associados puderam desfrutar de uma exposição sobre a história do futebol dentro do MPPR e foram presenteados com uma cópia física da HQ “APMP de Chuteiras”.

A versão digital da HQ pode ser acessada aqui .


1. Em 4 de fevereiro de 1969, o poderoso esquadrão do Santos F.C. foi convidado para um jogo amistoso na Nigéria, que vivia um sangrento conflito civil. Ora, como todo mundo na época queria ver o Rei do Futebol em campo, as partes beligerantes negociaram um cessar-fogo para assistirem à apresentação do Santos e de Pelé. Todavia, esse fato é cheio de controvérsias e polêmicas sobre sua veracidade. Independentemente disso, o povo nigeriano pôde ver o Rei e seu alvinegro vencer pelo placar de 2x1 sobre uma seleção do centro-oeste nigeriano.

2. “No dia 30 de janeiro de 1869, Angelo Agostini publicava a primeira história em quadrinhos nacional: “As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte”. Como homenagem, ficou instituído que neste dia seria comemorado o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, ou Dia do Quadrinho Nacional” (LAMAR, 2022).

3. “Em 1998 foi lançado Los 3 Inimigos, com tiras e charges de Tiago Recchia, que satiriza os três principais times de futebol da capital, Paraná, Coritiba e Atlético Paranaense, através dos personagens Paranito, Corisco e Atleticon, que no caso são os três “inimigos”. Os personagens que usam sombreiros mexicanos foram inspirados por Los 3 Amigos, da revista Chiclete com Banana, de Angeli, Laerte e Glauco. Além destes três personagens, pode-se ver outros personagens coadjuvantes, que representam outros times de futebol, como o Malita, do Malutron, e o Leonzito, do Rio Branco” (OS PERSONAGENS, [s.d.]).

4. O título homenageia o eterno jornalista esportivo Nelson Rodrigues, que cunhou a famosa expressão “complexo de vira-latas” e escreveu um livro de crônicas do futebol chamado “A Pátria de Chuteiras”, do qual tomamos inspiração.

5. Confira nossos rascunhos originais para a HQ “APMP de chuteiras”  aqui .

6. Filme de 2010, traduzido para o Brasil como “A Origem”, dirigido por Christopher Nolan e estrelado por Leonardo DiCaprio. O filme narra a história de especialistas em roubar segredos das pessoas, entrando em suas mentes por meio dos sonhos. A referência em questão é pelo fato de eles agirem em sonhos dentro de outros sonhos.

7. Confira o lance do gol do Bebeto aqui.


Referências

LAMAR, Caroline. Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos é celebrado neste domingo. Acre.gov. Disponível em: https://agencia.ac.gov.br/dia-nacional-das-historias-em-quadrinhos-e-celebrado-neste-domingo/. Acesso em 30 de jan. de 2023.

OS PERSONAGENS que fizeram a história dos quadrinhos em Curitiba. Nanu, [s.d.]. Disponível em: https://nanu.blog.br/os-personagens-que-fizeram-a-historia-dos-quadrinhos-em-curitiba/. Acesso em: 23 de jan. de 2023.