Minha vida (com Luiz Chemim Guimarães)

30/06/2023 | Por Izabela Kodaka

Desde que iniciei minha jornada de trabalho na Procuradoria Geral do Estado, no ano de 1961, na Rua Cruz Machado, esquina com a Rua Dr. Muricy, tinha um estudante de Direito que aparecia no mesmo andar, onde existia a Consultoria Geral do Estado (atual Procuradoria Geral do Estado), buscar sua namorada Maria Lúcia Regnier (à época, nem sabia o nome dela). Fui saber ser Luiz Chemim Guimarães apenas quando ele, junto com Munir Gazal, Carlos Massaru Kaimoto e Francisco José Nonato, começaram a aparecer e frequentar o Curso de Estagiário de dois anos iniciado na sala de Sessão do Conselho da Procuradoria.

Em seguida ao término do curso, foi aberto concurso para ingresso no cargo de promotor público substituto e eles se inscreveram (menos o Nonato, que queria seguir a carreira de advocacia na cidade natal de Manaus), conseguindo obter a aprovação e cada qual assumiu a comarca designada.

Com os passar dos anos, o Chemim voltou à capital como promotor de entrância final e convocado ao Gabinete Geral, mas em seguida foi assumir a Direção da Secretaria de Estado da Segurança Pública. Nessa época, como a Secretaria estava localizada na Rua Barão do Rio Branco, volta
e meia o encontrava na Rua XV, quando eu saía do escritório do Mauro João Sales de Albuquerque Maranhão e seguia em direção da Praça Tiradentes, com a finalidade de voltar à Procuradoria.

Sempre conversávamos e em meio ao nosso diálogo, indagou-me se não me candidataria (ele achava que eu era bacharel em Direito). Assim eu acabei sabendo que estaria abrindo concurso para datiloscopista. Ao chegar na Procuradoria, já avisei a Sandra Munhoz Souza, que acabara o curso de Direito.

Ao deixar aquela Secretaria, ele assumiu a direção da Procuradoria Geral do Estado e em seguida voltou à Procuradoria Geral de Justiça para dirigir esta instituição. Ele batalhou muito pelo crescimento do Ministério Público paranaense e conseguiu elevar o conceito da instituição, a ponto de ela servir de modelo aos demais Estados. O pensamento dele era como o meu, então adorei e sempre procurei contribuir, dentro da minha capacidade, lutar para essa finalidade de elevar o conceito do Ministério Público paranaense.

No final do ano de sua primeira gestão, a mulher dele, Maria Lúcia Régnier Guimarães, pediu-me que eu fizesse levantamento de quantos funcionários casados havia, com filhos menores de 11 anos, e organizasse preparativos para festejar o Natal com presença de todos e seus familiares, para que as senhoras dos procuradores e promotores pudessem presentear as crianças e pudéssemos lanchar juntos. Tive que preparar tudo e lá fui eu a comprar os presentes para a criançada, copos, talheres, pratos, refrigerantes, guardanapos e TNT para cobrir as mesas. E no dia em que elas marcaram, percebi que não havia espaço suficiente para caber tanta gente no auditório, então tive que pedir a todos os funcionários a chavear suas mesas e levassem no meio do corredor fechando a porta de entrada, para ninguém de fora pudesse acessar. Ainda bem que a nossa turma era muito unida e num instante formou-se mutirão de ajudantes e, no horário marcado pelas esposas dos agentes ministeriais, encontraram a todos presentes no corredor inteiro. A festa improvisada fluiu e foi só alegria de todos e satisfação total, e muito comentado.

Como eu já estava no cargo em comissão de Chefe do Gabinete Geral desde a gestão do Dr. Jerônimo de Albuquerque Maranhão, fez-me permanecer, inclusive me incumbiu de tomar conta do concurso de promotores substitutos. Eu atuava desde a fase de inscrição, ajudava os candidatos em tudo, sofria junto com eles durante as provas orais – que eram feitas no auditório Professor Ary Florêncio Guimarães. Após a aprovação, auxiliava os candidatos na escolha de Seções Judiciárias e comarcas, conforme a classificação no concurso. Depois, tinha que datilografar os títulos e a identidade dos futuros membros da Instituição, orientando-os, inclusive, juntamente com seus padrinhos, nos ensaios das formalidades para a cerimônia de posse. E dali até a assunção dos cargos, ainda tinha nervosismo, ansiedade, sofrimento de todos os candidatos, mas finalmente havia as alegrias e festividades.

Resolveu organizar, também, um grupo de estudos nas comarcas de Entrância Final de Curitiba, Foz do Iguaçu, Londrina, Ponta Grossa. No dia 14 de junho de 1989, durante reunião do Grupo de Estudos em Maringá, onde estavam todos os titulares – e eu sozinha, no Gabinete Geral –, recebi ligação telefônica de um cartório de Comarca (não me recordo se era de Ortigueira ou Curiúva) que pertencia à Seção Judiciária de Ponta Grossa. O telefonema foi para informar que era necessária a presença de um membro do Ministério Público para participar de um concurso de cartorário do município de Ortigueira no dia seguinte. Lá fui eu a procurar alguém que estivesse trabalhando na comarca, mas somente consegui contato com único promotor de Justiça, Francisco Bezerra Cavalcante, a quem expliquei a emergência e implorei que fosse atender, acrescentando que eu deixaria pronta a designação dele e, no retorno do doutor Chemim, ele sacramentaria a designação. 

Chemim endossa palavras do delegado: “mataram o promotor”
Jornal Correio de Notícias, Paraná, edição de 31 de outubro de 1989. Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Nacional Digital.

Dia seguinte1, ele que residia em Curiúva com sua esposa e casal de filhos menores, avisou-me que estava indo atender àquele concurso a ser realizado, porém, quase no final do expediente, recebi ligação da mulher do promotor, desesperada e em prantos, dizendo que seu marido foi morto com um tiro à queima-roupa por um juiz, no próprio cartório em que seria realizado tal concurso. Tive que conseguir contato urgente com doutor Chemim, que deu o maior trabalho, pois ninguém podia interromper aquela reunião do Grupo de Estudos, que na hora embrabeci de tal maneira que até assustei a pessoa. Expliquei da ocorrência e falei que fossem atender urgentemente. Resultado: acabei passando a noite inteira à espera do pessoal chegar de volta à repartição, o que ocorreu por volta das 3h00. Só então tomei conhecimento de que o juiz substituto de Ponta Grossa tinha interesse político na aprovação de determinado candidato e que o promotor discordou e foi morto.

O Chemim resolveu, também, na Reunião do Grupo de Estudos em Foz, levar todos os servidores que quisessem participar do encontro para conhecer Foz do Iguaçu, as Cataratas e a Usina do ltaipú, visitas que foram inesquecíveis.

O doutor Chemim era procurador-geral de Justiça e ao mesmo tempo ficou à frente da CONAMP, viajando constantemente até Brasília. Eu tinha que providenciar passagens aéreas e estadias do chefe. Como era a primeira vez que eu fazia isso, e sabedora de que o Diretor Secretário José Carlos Albuquerque do Amaral providenciava tudo, mas ele já se tinha aposentado, entrei em contato telefônico com ele. Daí, então, soube que ele estava trabalhando no Crystal Turismo, empresa do seu filho mais velho, e passei a pedir que ele providenciasse as passagens e hospedagens do Chemim e as trouxesse para mim.

 

Na primeira gestão do doutor Chemim como procurador-geral de Justiça, teve um promotor de comarca do interior que tinha quatro filhos legítimos e uma menor de idade adotada, portadora de alguma deficiência, e que era separado da mulher, que sempre quis extorqui-lo financeiramente. Esse promotor caiu em depressão, passou a se exceder nas bebidas alcóolicas e sofreu de cirrose hepática, chegando a entrar em estado de coma e sendo trazido até a capital de helicóptero. Foi salvo e, após sua recuperação, começou a trabalhar no Gabinete Geral, como vice-diretor do doutor Edson Luiz Vidal Pinto. O nome dele era Aparecido Rodrigues. Desde o primeiro encontro nosso, principalmente devido à condição de saúde dele e dos filhos menores, a situação me partiu o coração. Nossa amizade foi se consolidando cada vez mais, a ponto de, quando ele precisava empreender viagens a serviço, ele pedir que eu cuidasse dos filhos dele. Assim continuamos nossa amizade, mesmo quando a parte administrativa foi para migrada para a Casa Rosada, na Avenida Iguaçu, esquina com a Avenida Marechal Floriano Peixoto. Com o passar do tempo, ele foi designado a dirigir a promotoria de Defensoria Pública, onde começou a beber socialmente e acabou tendo outra cirrose hepática e um AVC fulminante, partindo para outra dimensão.

Na segunda gestão do Chemim, em 1990, como eu já estava pagando para trabalhar, expliquei a situação e pedi que me aposentasse, mas ele não aceitava. Por último, implorei, dizendo que se fosse por causa de não conseguir outra pessoa, por intermédio do procurador de Justiça Edson Luiz Vidal Pinto, que era diretor-secretário, que me aposentasse e contratasse por cargo em comissão, então eu ficaria até ele encontrar alguém.

Assim permaneci, até a minha exoneração, por ocasião da assunção da chefia da Instituição pela Maria Tereza Uille Gomes, em 2002.


Notas do Memorial

1. Dia 15 de junho de 1989, aniversário de 98 anos do Ministério Público do Paraná, que foi instituído pelo Decreto nº 1, de 15 de junho de 1891.