Luiz José Perrotti e de quem é a culpa...?

05/07/2023 | Por Rui Cavallin Pinto

Luiz José Perrotti foi inicialmente juiz substituto de Apucarana e, mais tarde, voltou à nossa comarca como um dos seus juízes titulares, onde permaneceu até conquistar sua promoção para a capital, em Curitiba. Eu o conheci ainda nesses primeiros anos, em Marilândia do Sul, comarca pela qual eu também respondia, provisoriamente, pela substituição das funções do Ministério Público. Então, nesse período viajávamos juntos diariamente para o atendimento do fórum, numa velha jardineira fechada com cortinas de lona, percorrendo um ritual diário de 30 quilômetros, que, às vezes, durava até duas horas, vencendo um estrada de terra e poeira, e parando a cada trecho para desembarcar passageiro ou bagagem, até alcançar seu destino.

Luiz José Perrotti.
Luiz José Perrotti | Ilustração do autor.

Durante a viagem, vestíamos guarda-pó e chapéu de palha e, à tarde, vencido o expediente, repetíamos o mesmo caminho de volta.

Perrotti, porém, vestia-se com elegância, terno, gravata e colarinho engomado, e, à chegada, saudava uns e outros com expressão cordial e até efusiva, com voz alta, repetindo o nome e até com menção de familiares.

Revelava assim seu temperamento latino, no gesto e na fala, com mostras de sua origem italiana, igual à sua paixão pelo Direito, que fluía natural do seu hábito, mesmo sem a toga de juiz ou sob as vestes talares de desembargador não podia sofrear.

Lembro que num daqueles dias, a cidade de Marilândia do Sul se alarmou com a notícia de que uma garota japonesa, a caminho da escola, havia sido atacada e violada por um caboclinho do lugar. Ora, como se sabe, os japoneses, mesmo da zona rural, zelam pela educação dos filhos. No caso, todas as suas crianças em idade escolar, frequentavam as escolas do município, sujeitando-se, muitas vezes, a longas caminhadas a pé.

Com a notícia do estupro, a colônia se pôs em alvoroço e fizeram prender o rapazelho e seus líderes foram atrás do juiz para as providências judiciais.

Estavam todos em estado de guerra e clamavam por justiça sumária e exemplar.

O Dr. Perrotti fez logo requisitar o estuprador e trazê-lo à sua presença pelo próprio delegado.

O diálogo foi então áspero. O capiau era um desses rapagões de roça, vigoroso mas desengonçado.

De chapéu na mão, ficou ali parado, calado e cabisbaixo.

 

E passou então a ouvir a maior descompostura. Quem era ele, afinal? Uma besta selvagem? Um desatinado? Como tivera a coragem de violar uma menina tão nova, de boa família, que seguia sozinha e indefesa no caminho da escola? E por aí seguiu o magistrado, passando-lhe a maior carraspana1.

O rapazelho afundava a cabeça nos ombros e não dizia nada, embora se ouvisse soltar alguns balbucios, como quem protestasse ser inocente.

Feito isso, o Dr. Perrotti mandou que a menina fosse trazida à sua presença.

Então, a cena foi outra. A fisionomia e a voz do magistrado ganharam tons aveludados. O juiz já não era juiz, mas “titio”.

A jovem, muito novinha, era porém crescida e dotada de uma certa robustez. Mas o diálogo que se seguiu foi mais de pai para filha.

– Meu bem, conta pro tio o que este malvado fez com você. Ele agarrou e machucou você, não foi? Conta pro tio! ...

E a menina, toda encolhida e de olhos no chão, disse apenas:

– Não, não agarrou não...

– Mas ele forçou você, minha filha, rasgou sua roupa... Insistiu o magistrado.

– Não, não rasgou minha roupa, doutor, repetiu a japonesinha.

Ainda assim, Perrotti voltou à carga, buscando a prova.

– E os machucados? Onde estão os machucados que ele fez? Mostra pro tio, para eu pôr esse tarado na cadeia!

– Também não tenho machucado, doutor, respondeu com a mesma ingenuidade a moçoila.

Assim, à medida que a rapariguinha dava resposta, o interrogatório foi murchando, murchando e o juiz foi perdendo o jeito e o ar de “titio”.

Por fim, encerrando a entrevista, falou ao escrivão:

– Sabe de uma coisa? Melhor levar estes dois daqui...O delegado que procure esclarecer o que houve e me diga quem é o verdadeiro culpado... Ou será que são os dois mesmo!?...


Nota do Memorial

1. Repreensão intensa, bronca, reprimenda.